Senão amor, então o que é?
Corpo atrofiado, cabelos brancos e brilhantes como uma gota de babosa, mãos calejadas, gélidas e extremamente delicadas, olhos profundos, azuis e perfeitos em sua melhor forma, sinceros. Vestes simples, como se não fizesse diferença alguma. Assim era a acompanhante de uma paciente que está internada em um hospital que faço estágio, eu como sempre observadora, reparo nos mínimos detalhes, quero saber o que há dentro das pessoas, as vezes tenho êxito, consigo até um diálogo. Com essa senhora nem de diálogo eu precisei, ela era transparente, seus sentimentos eram evidentes.
Querendo ou não cuidar de alguém, mesmo que seja uma pessoa de quem se gosta muito é uma tarefa muito dificil, por isso na maioria das vezes o hospital serve de muito para os familiares que simplesmente abandonam seus entes em algum leito e esperam que algo aconteça, isso é triste. São poucos os casos em que fica um acompanhante com o paciente que fica a longo prazo em um leito, mesmo dando ênfase a essa questão, não foi isso que me impressionou na Sra A.M. A paciente a quem me refiro, é a C.B.M, ela sofre de Esclerose Multipla, uma doença na qual não se sabe ao certo sua causa, apenas que é mais provável em mulheres, pois os indices apontam este fato. Os seus sintomas podem ser variáveis de acordo com o tipo de neurónio (excitador ou inibidor), no caso da C.B.M o neurônio é o excitador e ela apresenta: Ataxia (os membros superiores e inferiores se movimentam e tremem involuntariamente); Movimentos irregulares dos olhos, tais como nistagmus e oftalmoplegia internuclear; Defeitos na pronunciação das palavras (disfasia); Depressão e dificuldades de memória. E em função de permanecer efetivamente no leito apresenta várias ulceras por pressão, o estado em que ela se encontra é triste, não fala apenas transmite alguns estimulos confusos com os movimentos dos olhos.
Mesmo com qualquer uma dessas dificuldades, a Sra A.M permanece dia e noite ao lado da C.B.M, conversa, conta histórias, e não se afasta por um minuto, ela conta que deixou tudo para traz, para se dedicar aos cuidados de sua filha, e que desde então não mais se afastou dela. Nós vemos no fisico dessa Sra que a vida deixou muitas lições para ela, e que ela não se arrepende de tais, é lindo ver nos olhos de uma pessoa o amor que ela sente por outra, mesmo que seja em forma de lágrimas, o importante é que com ou sem sofrimento, aquilo se edifica em amor, é o carinho que ela sente, e a tristeza por querer ver o outro em um futuro melhor, porém de não abandonar se isso não vier a acontecer. Muito mais que uma acompanhante de quarto, ela é uma mãe, uma vida cuidando de outra, que se felicita com qualquer avanço e melhora, mesmo que eles não existam.
Quando eu saio do hospital, sempre volto para a casa pensando em como as coisas são relativas, e como tudo pode se transformar de um segundo para outro, e o que sempre permanece é o amor, nada permanece senão o amor, por isso eu escolhi a Enfermagem, por que dentro de mim há amor, eu quero transmitir isso, e receber isso. Nada é mais gratificante que um sorriso vindo de uma pessoa debilitada, mesmo com todas as coisas ridiculas que acontecem nessa profissão, eu quero segui-la, se esse é o caminho para eu conseguir aquilo que quero, eu vou em frente.
Dar valor ao próximo e esquecer um pouco dos bens materiais, se doar de alguma maneira é algo tão gratificante, VAMOS AMAR MAIS.
Ana Goulart
Publicado em janeiro 22, 2012, em O AMOR BATE Á PORTA. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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