02:47

Subindo a rua, pela manhã estreita,
Calculando os passos, e o tempo com destreza,
Por dentro do vidro, contornando à direita,
Ah, como eu adorava vê-la.
De longe, meu olho esquerdo ainda não perdia para o direito,
Não a perdia de vista de nenhum jeito,
Ligeiros minutos, encanto entre dois mundos,
Um labirinto de segredos que ainda perdura,
Abraço sem beijo, pureza, candura.
Perfume único, atraente, permanente.
No corpo a cor branca, linho simples, pouco desfiado. Marcante.
O ponto de encontro como o de um bom freguês: o mesmo de sempre.
Um pouco mais do mesmo, cada manhã,
Um pouco a mais da manhã, em cada mesmo.
Em cada pouco, um pouco mais dela.

Ah, como eu adorava vê-la.
Dois corpos que se anseiam, mas, saciam o silêncio.
Valores esses, que não atribuem-se ao vento, ele não merece.
O segredo é o melhor mistério. A melhor dúvida, o melhor medo.
O amor é a pior droga, a melhor cura, o melhor sentimento, o pior lamento.
Venerava com os olhos, abraçava em pensamento,
Descobri nas curvas do teu sorriso
a verdadeira e terna medida de quanto te querer, nunca quando, nunca como.
Profundo conhecedor do silêncio, deixei que o mesmo fizesse sua parte,
Não existe formula para o amor, nem medida para se amar, pura arte, em cada parte.

Ah, como adorava vê-la,
Ao chegar com tua blusa vermelha,
Às vezes com tua memória volátil.
Com o rímel que ainda pertence à meu predileto cardápio,
Ou com teus conselhos, que assemelham-se com os de um sábio.
Sentar, e ouvir teus problemas,
Ensinou-me aqui, sem dicionário, o ato ou efeito da confiança.
A tenra lembrança.
A eterna aliança.

Ah, como adorava percebe-la.
Nos mínimos detalhes,
onde mora a percepção,
como o escutar dos passos à porta pela manhã,
Ao silêncio e o “não é nada”, pela tarde.
Pela noite… Pela noite pensar sem muita exatidão.
Acompanhei o passar do tempo, fazendo dele, um outro segredo.
Abundancia em felicidade, escassez em lamento,
combinação perfeita para uma alimentação balanceada entre sabor e dissabor.
Magro em IMC, obesidade mórbida em amor.

Ah, como adorava vê-la,
Com um livro na mão, e um fone no ouvido
Atenção redobrada, deveria ser fácil,
não duvido.
Altas horas em que condiziam com que o outro sentia,
Em cada etapa, cada época, cada tempo, desenterrando a valentia,
Poucas palavras, muitos segredos.

A primeira viagem, carregado deles,
Num canto azul, do lado do rio.
Doze “jones” por dia, cinco horas, duas câmeras, uma dúvida, dois idiotas.
Ah, como odiava não vê-la.
Distante de tudo, tudo era distante.
Tocar em frente era meu carma, meu corpo dizia sim, minha mente dizia sim, minha alma dizia sim.
O livro dizia Sim Sim, Não Não. Não… Não…

Ah, como adorei vê-la,
Zanzando da esquerda para a direita,
Como naquelas manhãs estreitas,
Ainda não a perdia de vista, atravessando as sombras das árvores,
O sol fazia reluzir teus cabelos, e brilhar-te por inteira.
Mais tarde,
Pijama rosa, calça preta.
Desajeitada, do avesso,
descabelada, como poucos já viram,
íntimo, raro, um privilégio, nunca esqueço.
Sentada à mesa do café, olhando de longe, que estranho.
O que não é normal, torna-se excitante,
Qualquer premeditação é um risco, e o risco nesta ocasião, também é excitante.

A madrugada era a companhia, de quem queria viver como se fosse o ultimo dia,
Como se fosse a ultima vez,
Como se fosse o ultimo olhar,
O sono era suportável, rentável, controlável,
Entre longos abraços, e a cadeira,
Entre carnavais e olimpíadas de inverno,
Zapeando os canais da minha mente, percebi que estava muito longe de qualquer inferno.
Do contrário, gelei-me, tremi, paralisei-me.
Abre, fecha, abre, fecha… Fecha… não abre nunca mais, por favor, ou abre para sempre, não sei.
Revelou-se um segredo,
Escondeu-se o outro.
Ah, como eu adorava tê-la.

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