Hoje eu vi

Centro velho de São Paulo, Gusmões, 19:22h.
A noite por ali não é nem um pouco convidativa.
De um lado da calçada, os famosos vendedores de blocos
Do outro lado, meninas, mulheres, senhoras com seus mal trapos na alma. Pelo meio, crianças, e mais crianças com um futuro não promissor, cercadas de prostitutas, viciados, “blocos” e concreto em sua mente. Escravos da miséria que se multiplica, trazendo dúvida há uma geração, que apenas gera.
Dobro a esquina, Prestes Maia, paro na fila de um ônibus. Ao meu lado esquerdo, mais crianças brincando, correndo com pés descalços em meio ao esgoto aberto. Ouvi dizer ao fundo: “caiu, lava com água quente pra evitar bactéria”, viro-me e vejo o mesmo item na boca daquela criança.
Com um skate por debaixo dos braços, e um objeto branco na mão, regata, barbas por fazer alguém se senta próximo a esse punhado de crianças, e observo isso.
O olhar parece de um drogado, olhos arregalados, não diz uma palavra mas parece observar toda aquela cena de crianças desnorteadas pela calçada. Vira o pescoço para a direita ao olhar para a mãe gritando, fixa o olhar na criança ofendida para ver sua reação, retorna o olhar para a mãe, fita o garoto correndo e sorri com a cena. Mais crianças correm ao entorno, e o olhar segue, o sorriso também. Percebo que não se trata de um drogado em seu ápice alucinógeno, e observo cada detalhe, de longe.
Um mulato corre da direita para a esquerda, e ainda é acompanhado pelo olhar, mais um sorriso quando alguém grita: ô alemão!! E o negrinho volta correndo atendendo ao apelido contraditório.
Duas meninas param em sua frente, e pedem para dar uma volta naquele pedaço de madeira com quatro rodas. A resposta foi um arregalar de olhos, uma pausa por pelo menos 5 segundos. Um sorriso. E a ajuda para se equilibrar.
O “alemão” chegou em seguida quase sem roupa, demonstrou habilidade, remando, dropando, remando, dropando…
Em nenhum segundo ele olhou ao redor, não desviou o olhos daquele momento, não pensou no que a fila do ônibus pensaria, estava ali, naquele lugar, vivendo e compartilhando o simples.
Em seguida, pegou seu skate, embarcou no ônibus, e o “alemão” correu atrás até perde-lo de vista, sorrindo e lhe dando tchau.
Parece bobo.. E é.
Mas hoje eu vi dois minutos de felicidade, surgir do nada e desaparecer do nada.
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