Lembranças de lá, dela

Ainda vejo teus grampos no cabelo, como antigamente.
Ainda vejo teus cabelos, cinzas, brancos, pretos se alternarem e se preencherem de uma forma incomum. Se desprenderem com uma facilidade ao se pentear, naquele antigo espelhinho vermelho, que jaz em seu quarto. No tic tac do relogio de parede secular, da velha mesinha, indestrutivel, insubstituivel.
De frente a teu quarto encontrava-me toda noite, entre vagalumes e lagartixas que me faziam perder o sono. O velho filtro de barro no corredor em cima dum tamburête, com aquela caneca de alumínio fatídica, litros e mais litros de água em garrafas de alcool, fazendo pequenos icebergs na geladeira. O meu suco de acerola à mesa, meu moedor de café à esquerda – bíceps, tríceps trabalhados numa manivela com rugidos.
A balança na figueira, meus tempos de marceneiro sem vocação não enxergando os pregos, martelando a mão,
Na sala meu retrato de soldado, à velha máquina de costura vejo aposentar-se sem dizer não, num canto espremido dando lugar à moderna televisão, antes, coisa do cão.
Da mangueira de água, à mangueira da manga. O simples remete-me a frase: felicidade do topo encontra-se no chão.
No chão de terra, no chão de pedra, onde ensinou-me a debulhar a espiga, onde “comer furmiga faz bão pras vista”, e leite com manga é a mistura maligna.
No terreiro onde llimões eram bolas, as galinhas eram alvos, o sol queimava a sombra no verão. A chuva de dezembro fazia-me admirar o alto daquela pedra, similar ao quadro da sala dela.
Das cadeiras lá fora, noite fresca para apaziguar, murmurinhos na estrada, causos debaixo de um céu estrelar,
Manias de quem não se importava com a vida que levava, simplicidade não à assustava, vigiava e vigiava…

Mas, aquela ligação me fez pensar.
O que seremos neste mundo, até quando não existir mais o nosso mundo?
Ao entrar na estrada de terra, o silêncio foi absoluto, cada fazenda, cada caminho sendo refeito, cada curva daquele lugar, fazia o pai pensar. Longos trinta minutos, -eternizados por um triste lamentar.
Tirou o cinto, estacionou, resolveu chorar.
O vô com teu olhar vermelho, não me recebeu de pé, hoje não queria seu café.
Recolocou o chapéu, cheio de poeira.
Li em teus olhos, o que ele gritava por dentro:
Perdi minha velha companheira.

Alan Pimentel

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